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2.1. MEDIDAS MITIGADORAS: OPÇÕES EXISTENTES > INTERVENÇÕES ESTRUTURAIS

São aquelas que se inserem no projeto rodoviário por meio de execução de obras de engenharia específicas para uso da fauna ou adaptações dos padrões construtivos com objetivo de proporcionar condições de deslocamento ou proteção da fauna.

Passagens inferiores

É a estrutura construída exclusivamente para a fauna mais utilizada nas rodovias brasileiras, destinando-se a grande número de espécies terrestres, semiaquáticas e inclusive quirópteros (GAISLER et al. 2009). Para que tenham maior eficácia, é essencial que estejam localizadas nos caminhos preferenciais da fauna, o que depende de um bom diagnóstico prévio. As passagens inferiores apresentam temperaturas significativamente menores do que o ambiente externo, característica que funciona como atrativo para sua utilização como pontos de regulação de temperatura e consequentemente de travessia (ASCENSÃO & MIRA 2007; CAIN et al. 2003). Apesar de ser uma possibilidade levantada frequentemente, o uso das passagens de fauna como sítios preferenciais de predação por carnívoros não foi constatada em estudos que abordaram a questão (ARESCO 2005).

É importante que recebam iluminação natural, para permitir o eventual crescimento da vegetação, tornando o ambiente mais atrativo para a fauna. Isto pode ser obtido por uma maior proporção de abertura das estruturas ou por aberturas superiores (CAIN et al. 2003), à altura do canteiro central, naquelas inseridas em pistas duplicadas. A manutenção de vegetação próxima as suas entradas, servindo como guia para a fauna, também é altamente recomendada (CLEVENGER & WALTHO 2000; GRILO et al. 2008). Sua localização deve priorizar áreas com elevada permeabilidade potencial ou confirmada para a fauna, diagnosticadas como corredores e que recebam pouca interferência humana (CLEVENGER & WALTHO 2000; GRILO et al. 2008; MATA et al. 2008). Passagens localizadas próximas a áreas urbanas, por exemplo, são mais utilizadas por espécies antropogênicas, sendo, portanto, recomendável sua instalação em áreas afastadas, de modo a priorizar a utilização por espécies silvestres (ASCENSÃO & MIRA 2007).

Seu dimensionamento depende do grupo animal ao qual se destina, podendo variar entre 0,3 e 7 m de largura ou diâmetro por 0,3 e 4 m de altura (CLEVENGER & HUIJSER 2011). Naquelas de maiores dimensões, podem estar associadas a drenagens, desde que seja mantida passagem seca por meio da instalação de plataformas laterais.

 
Figura 10. Passagem de fauna sob pontilhão na rodovia RS 486 – Rota do Sol.   Figura 11. Instalação de passagem de fauna em bueiro celular. Rodovia BR 101/RS.
     
 
Figura 12. Passagem de fauna em bueiro celular 1,5 x 1,5 m, BR 101/RS.
Figura 13. Entrada de passagem de fauna (seta) na BR 101/RS, com cerca direcionadora.
     
 
Figura 14. Passagem de fauna construída com bueiro tubular corrugado na BR 471/RS – Estação Ecológica do Taim.   Figura 15. Túnel para pequenos mamíferos, com cerca direcionadora (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

 

Passagens inferiores grandes

São aquelas passagens inferiores normalmente com 7 a 25 m de largura e entre 3 e 5 m de altura. Recomenda-se uma proporção de abertura maior do que 0,75, pois alturas muito reduzidas as tornariam percebidas pela fauna como túneis, reduzindo sua utilização por algumas espécies, como os cervídeos, por exemplo (CALTRANS 2009). Entretanto, a proporção de abertura não é um critério a ser adotado como regra única, devendo ser considerados fatores como a existência de vãos iluminados junto ao canteiro central, qualidade do hábitat e espécies-alvo na definição das características da estrutura (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

Deve haver correspondência de hábitats em ambos os lados da rodovia (CLEVENGER & HUIJSER 2011). Com pequenas adaptações no substrato e recobrimento das paredes, podem ampliar o espectro de espécies que as utilizam. Podem ser construídas por meio de pontilhões pré-moldados, que possuem características estruturais que permitem maior vão vertical. É recomendada a instalação de cercas, ou mesmo solos estabilizados mecanicamente, quando topograficamente adequado, para direcionar a fauna às passagens e impedir seu acesso à estrada.

São destinadas especialmente a grandes mamíferos, mas podem ser usadas pela maioria dos demais grupos animais (BECKMANN et al. 2010). Para tanto, é importante que seja fornecido substrato de terra do próprio local e maximizado o microhábitat, com a disposição de pedras, rochas e galhadas (CLEVENGER & HUIJSER 2011). Apresentam como elemento por vezes restritivo o elevado custo de implantação (ARROYAVE et al. 2006).

 
Figura 16. Passagem inferior construída com estrutura de pontilhão e iluminação natural (CLEVENGER & HUIJSER 2011).
 
Figura 17. Passagem inferior em Sierra County, California. Foto: Brian Ehler, Calif. DF&G (CALTRANS 2009).

 

Passagens inferiores multiuso

Estruturas similares às grandes passagens inferiores, porém destinadas também ao uso humano e de animais domésticos. Voltadas a alguns grandes mamíferos, são também utilizadas pelos demais grupos, particularmente por espécies generalistas. Correspondem, em uma de suas formas, aos chamados passa-gado, bastante comuns no Brasil. Deve-se evitar o uso por veículos motorizados. Quando largas o suficiente, pode-se confinar o trânsito humano a um dos lados da passagem, utilizando-se vegetação para segregar os diferentes usos. Devem possuir no mínimo 5 m, e preferencialmente, mais de 7 m de largura, e altura superior a 2,5 m (recomenda-se mais de 3,5 m) (BECKMANN et al. 2010; CLEVENGER & HUIJSER 2011).

 
Figura 18. Passagem inferior multiuso (CLEVENGER & HUIJSER 2011).   Figura 19. Passa-gado em tubo corrugado. Foto: Norma Ambiental VALEC nº 15/2010 (www.valec.gov.br).

 

Túneis para anfíbios e répteis

A localização em rotas migratórias para os sítios de reprodução e o microclima (umidade, luz e temperatura) são decisivos para sua utilização (CLEVENGER & HUIJSER 2011). Aqueles mais longos e estreitos devem ser posicionados próximo à superfície da estrada e contar com aberturas para entrada de luz para serem efetivos. A superfície preferencialmente deve ser recoberta por solo, retendo mais umidade do que as estruturas nuas de concreto ou metal (LESBARRÈRES et al. 2004).

O desenho retangular dos túneis é mais recomendado, pois as paredes verticais de estruturas pré-moldadas facilitam o direcionamento do deslocamento dos indivíduos. Bueiros circulares são utilizados, mas se deve evitar aqueles de aço, pois tem alta condutividade, podem criar campos magnéticos (LESBARRÈRES et al. 2004) e apresentam temperaturas muito baixas durante os períodos migratórios de primavera. Podem também ser formados por canaletas subsuperficiais, sendo então de menores dimensões e recobertos por grades metálicas. Os túneis não devem ser inundados, pois isto impede o trânsito dos animais. Não devem apresentar degraus ou inclinação vertical, tampouco aberturas superiores quando interceptam canteiros centrais, sendo preferencialmente contínuos (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

Têm normalmente até 0,9 m de largura, e sua eficácia já foi verificada em distâncias de até 40 m (Lausanne, Suíça), apesar de que túneis mais curtos parecem ser mais eficientes para os anfíbios (BECKMANN et al. 2010). Recomenda-se que sejam providos diversos túneis nas áreas de sítios reprodutivos, espaçados até 45 m entre si (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

Cercas e barreiras são fundamentais para direcionar os animais para estas estruturas. Devem atingir o túnel em ângulo de 45º e ter características que dificultem a escalada pelos animais, tendo preferencialmente mais de 35 cm de altura.

 
Figura 20. Túnel para herpetofauna com barreira direcionadora (CLEVENGER & HUIJSER 2011).   Figura 21. Duto subsuperficial para anfíbios, recoberto por grades (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

 
Figura 22. Cerca direcionadora para herpetofauna (BARKER 2009).   Figura 23. Entrada de túnel para herpetofauna (BARKER 2009).

Ecodutos ou pontes de ecossistemas

Tendo sido inicialmente testados na Europa há mais de 4 décadas, constituem uma alternativa de mitigação avaliada positivamente quanto a sua capacidade de propiciar deslocamento para um amplo espectro de animais (ARROYAVE et al. 2006). Características importantes para sua efetividade são a implantação de cobertura vegetal e a instalação de barreiras visuais, por meio do plantio de espécies arbustivas e arvoretas em suas laterais ou da instalação de cercas de madeira, por exemplo. Podem, também, receber canais ou ambientes artificiais que induzam sua utilização por anfíbios (ARROYAVE et al. 2006).

Permitem uma continuidade de hábitats, pois a própria estrutura recria um ambiente atrativo à fauna, sem confinamento e com a possibilidade de reprodução das condições ambientais circundantes, servindo inclusive como um hábitat de passagem para pequenos animais (AHERN et al. 2009). Devem apresentar tipos diferentes de vegetação, combinando cobertura herbácea, arbustiva e arbórea, para estimular a utilização por uma maior variedade de animais. Normalmente tem mais de 70 m de largura, e preferencialmente mais de 100 m, atendendo todos os grupos da fauna terrestre (BECKMANN et al. 2010; CLEVENGER & HUIJSER 2011), assim como aves (JONES & BOND 2010). Apresentam como elemento dificultador para sua implantação o alto custo associado.

 
Figura 24. Ecoduto (CLEVENGER & HUIJSER 2011).
 
Figura 25. Ecoduto (DAMARAD & BEKKER 2003).
Passagens superiores

Semelhantes aos ecodutos, porém com menores dimensões (40 a 70 m de largura). Para utilização por grandes mamíferos, é sugerida uma largura mínima entre 40 e 50 m (VAN WIEREN & WORM 2001). Segundo dados de 2008 (BISSONETTE & CRAMER), existiam apenas quatro passagens superiores nos Estados Unidos e três no Canadá, quantidade bastante reduzida se comparada as 559 e 118 passagens inferiores instaladas, respectivamente, em ambos países. Já na Europa, são extremamente utilizadas, existindo registro de 125 passagens superiores na França, 30 na Alemanha, 20 na Suíça, quatro na Holanda, além daquelas em inúmeros outros países daquele continente e na Austrália (CORLATTI et al. 2009).

É importante que não existam atividades humanas para que tenham maior grau de efetividade. Ainda que destinadas principalmente aos grandes mamíferos, são utilizadas por ampla gama de espécies (BECKMANN et al. 2010). Para espécies de maior porte, é importante que a densidade de arbustos não seja tal que dificulte sua movimentação. Entretanto, dada a tendência de utilização por outros grupos, tais como pequenos e médios mamíferos, anfíbios, répteis, e mesmo aves (JONES & BOND 2010) e invertebrados (KELLER et al. 2005), é desejável que a passagem apresente uma continuidade do hábitat circundante, com vegetação similar (JONES et al. 2011).

O tipo e densidade da vegetação a ser implantada têm como limitante a camada de solo a ser depositada na passagem. Como esta é diretamente relacionada às características estruturais, deve ser prevista já na fase de projeto (AHERN et al. 2009).

Como potencialmente podem acarretar em riscos ao tráfego, seja por interferir com rampas ou intersecções, ou por se tornar uma distração aos motoristas ou obstaculizar seu campo de visão, o desenho e a localização das passagens devem ser minuciosamente analisados no âmbito do projeto de engenharia da rodovia (AHERN et al. 2009).

   
Figura 26. Vista aérea da passagem superior instalada na Campton Road, Brisbaine, Australia. Imagem: Google Earth, 15/06/2009.   Figura 27. Vista da passagem superior a partir da rodovia. Imagem: Google Street View. (Coord. 27º36’58”S/153º05’03”E)   Figura 28. Implantação da vegetação na passagem superior. Ao fundo, postes com poleiros para aves (VEAGE & JONES 2007).

 

Passagens superiores multiuso

Caracterizam-se pela destinação voltada tanto à fauna (especialmente de mamíferos, incluindo alguns de grande porte e a maioria dos generalistas) quanto ao uso humano e de animais domésticos (BECKMANN et al. 2010). Adaptações para que se obtenha um mínimo de segregação entre os tipos de usuário devem ser providas, tais como o plantio de vegetação arbustiva no segmento destinado preferencialmente à fauna silvestre (AHERN et al. 2009). Em geral, têm entre 8 e 25 m de largura.

 
Figura 29. Desenho conceitual de passagem mista para humanos e fauna em Walden Ponds, Massachussets, Estados Unidos (AHERN et al. 2009).   Figura 30. Passagem mista (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

 

Passagens no estrato arbóreo

Geralmente constituídas de cabos de aço ou cordas que ligam as copas das árvores, se destinam à passagem de espécies semi-arborícolas e arborícolas em ambientes florestais (BECKMANN et al. 2010). Embora possam ser ancoradas em árvores, no caso de rodovias de pequena largura, preferencialmente devem ser fixas em estruturas permanentes especificamente construídas para esta finalidade. Cordas devem ter pelo menos 8 cm de diâmetro, sendo estendidas paralelamente, espaçadas por aproximadamente 20 a 30 cm e conectadas entre si por redes de nylon. Quando utilizadas plataformas de madeira, estas devem ter pelo menos 30 cm de largura (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

 
Figura 31. Passagem aérea instalada na rodovia SC 450, Praia Grande.
Foto: Rodney Schmidt – IBAMA, processo de licenciamento ambiental nº 02001.002695/05-01.
  Figura 32. Bugios-ruivos (Alouatta guariba) utilizando a passagem aérea. Foto: Gerson Buss, Programa Macacos Urbanos.
 
 
Figura 33. Passagem instalada na sinalização da rodovia (CLEVENGER & HUIJSER 2011).   Figura 34. Passagem em estrutura de madeira e cordas (CLEVENGER & HUIJSER 2011).

 

Túneis rodoviários

Com extensões dependentes do obstáculo a ser transposto, os túneis são habitualmente construídos quando as feições topográficas dificultam a adoção de outras alternativas, tal como em regiões montanhosas. Ao separar fisicamente o tráfego e a fauna, praticamente eliminam os incidentes e preservam a conectividade existente, sendo ambientalmente preferenciais às demais alternativas tecnológicas que interferem diretamente no hábitat (CARR et al. 2002). Entretanto, devido ao seu alto custo, raramente são utilizados por motivos exclusivamente relacionados à fauna (BECKMANN et al. 2010). Já com justificativa ambiental em sentido amplo, existem exemplos de seleção desta alternativa no contexto do licenciamento ambiental, tal como o túnel sob o Morro Alto, na BR 101/RS, com 1.900 m de extensão, reduzindo o percurso do traçado anterior da rodovia em 10,95 km. O custo total estimado do lote de 25 km em que o mesmo se inclui, entretanto, subiu de 59 para 110 milhões de reais com a adoção desta alternativa.

Apresentando resultados similares e custos inferiores, ainda que elevados, falsos túneis aproveitando-se de cortes-caixão podem ser uma solução particularmente eficiente quando as condições topográficas o permitirem e o ambiente apresentar alto interesse para conservação. Neste caso, a nomenclatura escolhida depende da perspectiva do observador, pois representa igualmente um ecoduto ou passagem superior, apenas com sua construção facilitada pelas características topográficas do local. Atendem a praticamente todos os grupos animais.

 
Figura 35. Conjunto de túneis com passagem superior cercada (JONES 2010).   Figura 36. Túnel na Alemanha, com área superior proporcionando uso misto (humano e fauna) (IUELL et al. 2003).

 
Figura 37. Túnel sob o Morro Alto, BR 101/RS. Imagem Google Earth, 2010. (Coord. Geogr. 50º12’27”W / 29º44’00”S, WGS84)   Figura 38. Emboque Norte do túnel sob o Morro Alto, BR 101/RS.

Viadutos e elevadas

Geralmente não tem como finalidade principal oferecer conectividade à fauna, mas oferecem esta vantagem adicional. Em várzeas extensas e áreas úmidas constituem a melhor alternativa, pois interferem minimamente no ambiente. Possuem extensão variável e atendem à praticamente todos os grupos de animais (BECKMANN et al. 2010).

 
Figura 39. Viaduto (Jones 2010).   Figura 40. Viaduto na rodovia RS 486 - Rota do Sol, Rio Grande do Sul.
 
Figura 41. Elevada com cerca de 2.100 m de extensão na BR 101/RS, várzea do rio Maquiné. Imagem Google Earth 2010. (Coord. Geogr. 50º10’53”W / 29º42’23”S, WGS84)
 
 
Figura 42. Elevada na várzea do rio Maquiné. (Coord. Geogr. 50º11’40,4”W / 29º43’12,4”S, WGS84)   Figura 43. Detalhe da elevada no trecho sobre o canal do rio Maquiné, BR 101/RS.

Pontes e pontilhões

Preservam a integridade dos ambientes aquáticos e, com eventuais adaptações, tais como passagens secas, propiciam excelentes corredores para a fauna terrestre, cuja movimentação frequentemente está associada às drenagens e matas ciliares associadas.

 
Figura 44. Ponte São Borja (Brasil) – Santo Tomé (Argentina), com amplos vãos secos junto às cabeceiras. (Coord. Geogr. 56º00’40”W / 28º36’53”S, WGS84)   Figura 45. Ponte na BR 101/RS, com passagem seca junto à margem. (Coord. Geogr. 50º10’51,9”W / 29º42’22,7”S, WGS84)
 
 
Figura 46. Foto aérea do pontilhão Várzea 2, obras de duplicação BR 392/RS. (Coord. Geogr. 52º19’40”W / 31º49’39”S, WGS84)   Figura 47. Pontilhão Várzea 1, BR 392/RS, com laterais secas para passagem de fauna. (Coord. Geogr. 52º19’28”W / 31º49’04”S, WGS84)

 

Bueiros modificados

Originalmente destinados à função de drenagem, pequenas adaptações podem torná-las eficientes estruturas de passagem para vertebrados. Plataformas secas e rampas de acesso são de fácil implantação e reduzido custo, resultando em uma estrutura funcional. Tais adaptações, entretanto, não devem interferir em sua capacidade hidrológica (BECKMANN et al. 2010). A análise por ASCENSÃO & MIRA (2007) da utilização de 34 bueiros em duas estradas de Portugal demonstrou que estas estruturas são incorporadas aos caminhos de muitas espécies, principalmente carnívoros, independente do volume de tráfego. Quando este é elevado, a perturbação por ele provocada desencoraja os animais a tentarem cruzar a estrada, fazendo com que busquem passagens alternativas, o que é facilitado pela instalação de cercas direcionadoras. Na Austrália, bueiros têm sido usados por amplo espectro de espécies, particularmente quando apresentam hábitats adjacentes preservados (TAYLOR & GOLDINGAY 2003), situação similar àquela observada para felídeos nos Estados Unidos (CAIN et al. 2003) e mamíferos em geral no Canadá (CLEVENGER et al. 2001A).

Formato, comprimento, altura, largura, revestimento e iluminação, além de degraus ou poços de recolhimento de detritos que podem se constituir em obstáculos físicos, são características estruturais que influenciam seu grau de utilização para todos os grupos animais e, particularmente, para peixes. Enquanto a maioria dos animais prefere estruturas que possibilitem boa visibilidade do hábitat na extremidade oposta, para anfíbios esta parece não ser uma característica determinante (CALTRANS 2009). O substrato deve preferencialmente ser o mesmo do ambiente adjacente, e a utilização de cercas condutoras e vegetação próximo as suas entradas incrementa o potencial de uso destas estruturas (GRILO et al. 2008; TAYLOR & GOLDINGAY 2003).

Os bueiros têm normalmente entre 0,6 e 2,5 m de largura ou diâmetro, e podem ser dos seguintes tipos (Figura 48):

  • Bueiro celular: geralmente de concreto pré-moldado, apresenta grande área basal e pode ser instalado em módulos, sendo de simples construção. Normalmente apresenta a superfície da base lisa, o que acarreta em aumento da velocidade da água. Em casos de fluxo reduzido, é importante que tenha um canal central rebaixado que mantenha fluxo constante e sirva como passagem para peixes.
  • Bueiro circular: maior profundidade da água facilita fluxo da ictiofauna em descargas reduzidas.
  • Bueiro tubular em arco: área basal ampliada, perfil baixo.
  • Bueiro em arco: substrato do curso d’água mantido em condições próximas às naturais, o que é recomendável especialmente para peixes. Podem ser construídos com até 12 m de seção transversal, mas a viabilidade normal para sua instalação não excede 7,5 m. Também apresentam limitações em gradientes superiores a 8%, devido à tendência de formação de processos erosivos que comprometam a estabilidade de suas bases (BAKER & VOTAPKA 1990). O maior tempo para instalação, maior altura e o custo elevado também são elementos que dificultam sua adoção como regra geral na escolha de dispositivos de drenagem.
     
     
Figura 48. Corte transversal de diferentes tipos de bueiros e exemplos de plataformas para passagem seca. a,g,h,i,j) celular; b,e) circular; c) tubular em arco; d,f) arco. O bueiro celular (a) apresenta em seu interior, à direita, plataforma sobre bueiro circular servindo como passagem seca, solução adotada pelo DNIT em alguns projetos de rodovias federais. Em g), cerca direcionadora, com detalhe em h). Em i) e j), detalhes de passagem seca no interior do bueiro celular. Observe-se a ausência de rampas de saída para facilitar o acesso da fauna no bueiro apresentado em j). Esquema adaptado de BAKER & VOTAPKA (1990); fotos: (e) IUELL et al. 2003, (f) BANK et al. 2002.

Preferencialmente, a esconsidade e o ângulo de inclinação vertical do bueiro devem corresponder aos do curso d’água por ele drenado. Entretanto, se a inclinação for muito acentuada, a superfície lisa dos bueiros pode acelerar demasiadamente a velocidade da água, impedindo a transposição por diversas espécies de peixes. Após estudo hidrológico detalhado, pode ser reduzido o ângulo de inclinação do bueiro, o que facilita a passagem de peixes, sendo necessário, simultaneamente, adotar medidas para reduzir o desnível gerado entre uma extremidade do bueiro (ou ambas) e o curso d’água. As extremidades dos bueiros devem apresentar desníveis tais que não comprometam a passagem da fauna, o que pode ser obtido com a deposição de pedra-rachão de forma a suavizar a transição do bueiro para o solo adjacente, ou com instalação de piscinas sequenciais de repouso, formadas com a instalação de barreiras de gabiões ou concreto, com desnível de até 30 cm uma da outra, até que seja superada a diferença de cotas entre a extremidade do bueiro e o nível normal do curso d’água (Figura 49). Bueiros de metal corrugados (ármicos) apresentam velocidade da água entre 2 e 3 vezes menor do que aqueles lisos nas mesmas condições de comprimento, inclinação e fluxo d’água, o que é desejável para a movimentação de peixes (BAKER & VOTAPKA 1990). Entretanto, para a fauna terrestre, é necessário avaliar a necessidade de revestimento da superfície inferior no caso de rugosidade excessiva, a qual pode ocasionar dificuldade de movimentação para espécies de pequeno porte. No caso de bueiros construídos com material de tonalidade escura, também deve ser avaliada a necessidade de pintura interna com cores mais claras, visando aumentar a visibilidade do ambiente.

Figura 49. Corte longitudinal de sistema de piscinas para dissipação de energia do fluxo d’água e viabilização da travessia de peixes. No detalhe à esquerda, visualizam-se canais centrais para manutenção do fluxo. Adaptado de BAKER & VOTAPKA (1990).

Para a fauna em geral, é essencial que disponham de dispositivo para passagem seca na maioria das condições de fluxo hídrico elevado. Esta pode consistir em uma plataforma sustentada por mãos-francesas, degrau sólido ou plataforma sobre bueiro circular inserido em bueiro de maiores dimensões, visando à manutenção da vazão de projeto. É importante que o acesso do terreno contíguo até a plataforma seja viabilizado por rampas suaves. Mesmo que em situações de excepcional fluxo hídrico se verifique a inundação completa das estruturas, na maior parte do tempo será mantida sua funcionalidade como passagem de fauna.

 
Figura 50. Passagem seca formada por pedras na lateral de bueiro corrugado (CALTRANS 2009).
 
Figura 51. Bueiro ármico com borda de concreto na entrada e entorno em pedras, para melhor visualização. Foto: Atlantic Industries Limited.

Figura 52. Croqui ilustrando plataforma seca para deslocamento da fauna. Adaptado de Nota Técnica GA-14-05-2012, DNIT-UFSC/FAPEU (Laura M. Gomes, Luis Fernando Barrios e Juliana S. Roscoe), Licenciamento BR 386/RS, Processo IBAMA nº 02001.007807/2006-92.


Barreiras anti-ruído

Podem ser construídas de madeira, concreto, vidro ou mesmo obtidas com o plantio de espécies vegetais adequadas. Estas podem incluir arbustos e arvoretas em densidade elevada, quando na mesma cota da rodovia, ou árvores com folhagem densa, se no topo de taludes de corte, não comprometendo a segurança viária. Além de visarem proteção acústica a ambientes urbanizados adjacentes, em relação à fauna se destinam principalmente à proteção de sítios de nidificação de aves e como guias para condução de fauna aos dispositivos de passagem. Sua efetividade foi pouco testada, sendo necessário avaliar seus reflexos no efeito de barreira, seja pela própria contenção física, seja por uma potencial redução no evitamento à estrada pela fauna (BANK et al. 2002).

 
Figura 53. Barreira acústica na França (JONES 2010).   Figura 54. Barreira acústica, Rodovia M7, Irlanda, 2012. Foto: Fabiana Michelsen de Andrade, FEEVALE.
Ampliação do canteiro central

Proporcionar um canteiro central vegetado e com maiores dimensões do que as habituais proveria os animais de um local intermediário quando de sua travessia da rodovia, possibilitando que a efetuassem em um sentido por vez, hipoteticamente reduzindo a possibilidade de serem atropelados. Entretanto, os dados quantitativos existentes indicam que este tipo de tratamento do canteiro central pode resultar em maior número de colisões quando comparado a divisões com barreiras Jersey (Figura 56) ou pistas contínuas, especialmente para aves e felídeos (CAIN et al. 2003; CLEVENGER & KOCIOLEK 2006). Tal fato pode se dever à atração de um maior número de animais a um ambiente potencialmente perigoso (BECKMANN et al. 2010), especialmente se utilizadas árvores frutíferas. Barreiras Jersey ou F, cuja finalidade é reconduzir veículos desgovernados à pista, são amplamente utilizadas no mundo inteiro, tanto nas laterais das pistas quanto na separação de fluxos de tráfego. Como constituem barreiras físicas à movimentação da fauna, sua instalação com intervalos para permitir a passagem de animais, ou a disponibilização de aberturas ovaladas para que pequenos mamíferos e roedores não tenham seu caminho bloqueado ao cruzar a rodovia, tem sido cada vez mais empregada, ainda que a eficácia destas adaptações estruturais não tenha sido testada (CLEVENGER & KOCIOLEK 2006).

 
Figura 55. Canteiro central ampliado (Clevenger & Kociolek 2006).   Figura 56. Barreira Jersey com passagem para fauna (Clevenger & Kociolek 2006).

 


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CONECTE - Guia de procedimentos para mitigação de efeitos de rodovias sobre a fauna
©2012 Mozart S. Lauxen e Andreas Kindel

Atualizado em: Tuesday, August 21, 2012 15:29

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